ÉPOCA ouviu quatro dos dez brasileiros que contribuem com
a Dignitas, organização suíça que cobra cerca de R$ 15 mil para fazer
suicídio assistido. Eles aceitaram contar por que decidiram encomendar a
própria morte

(Foto: Rodrigo Schmidt/ÉPOCA)
"Há quatro anos, eu estava andando na rua quando desmaiei, caí e
quebrei uma costela. Investigando a causa daquele desmaio, descobri que
tenho ateromatose, uma doença degenerativa que entope minhas artérias
carótidas e aorta. Isso prejudica o fluxo de sangue e oxigênio para meu
cérebro, provocando desmaios e a morte de células nervosas. A
ateromatose é imprevisível. Posso ter um derrame, dentro de um mês ou 15
anos, e perder a consciência de quem sou para sempre. Logo que fui
diagnosticada, me inscrevi na Dignitas. Eu conhecia e admirava o
trabalho do americano Jack Kevorkian, o Dr. Morte, que auxiliava seus
pacientes terminais a morrer. Fiquei aliviada ao descobrir uma
organização capaz de fazer isso, mesmo que eu tivesse de viajar até a
Suíça. Não sei se usarei o serviço algum dia, mas é um conforto ter essa
opção. Tenho duas filhas maravilhosas. Uma é mais emotiva e não gosta
de tocar no assunto. Mas nenhuma das duas se opõe à minha decisão. Caso
eu tenha algum problema grave, com sequelas, elas sabem onde encontrar
uma pasta com declarações escritas sobre o meu desejo de cometer
suicídio assistido e ser cremada.
Antes, eu era muito ativa. Hoje em dia, tudo é devagar por causa
dessa doença. Tenho sono o tempo todo. Sinto dor para engolir. Às vezes,
não consigo me equilibrar. Sei que há uma cirurgia para tratar da
ateromatose. Mas é um risco. De dois conhecidos que fizeram, um morreu
durante a operação e outro ficou com sequelas graves. Como qualquer
outra pessoa, adoraria morrer dormindo, de enfarte, daqueles
fulminantes. Mas nada me garante esse destino, e eu tenho pavor de
perder o controle do meu cérebro. Sei bem como é acompanhar alguém que
sofreu disso. Antes de morrer, minha mãe passou três anos delirando num
leito de hospital, sem reconhecer pessoas e falar coisa com coisa. Foi
terrível. Proibi minhas filhas de a visitarem. As duas tinham que
guardar somente lembranças boas da avó, que não parecia mais um ser
humano. Quero livrar as minhas filhas dessa dor. Para mim, a morte é o
final feliz. Você e seu sofrimento não existem mais. As pessoas próximas
ficam tristes, passam por um período de luto e depois sentem saudade.
Frequento médicos e faço exames regularmente. Não deixei de fumar
um maço de cigarros por dia. Não há muito o que fazer nesse estágio da
vida. Daqui pra frente, o que vier é lucro. Já deixei tudo pronto para
elas. Não tenho mania de morte. Sou bem-humorada. Faço um esforço danado
para realizar tudo o que ainda posso. Ultimamente, ando atarefada com a
reforma do meu apartamento. Não entendo quando alguém sonha viver até
os cem anos e não imagina a qualidade de vida e limitações que teria
nesta idade. Experimentei muito mais do que várias pessoas de 90 anos.
Não fiquei na janela olhando a vida. Aproveitei minha juventude, peguei
muito sol, viajei pelo mundo, namorei, casei, me divorciei e trabalhei
duro. Não me sinto uma suicida. Jamais pularia da janela. Cada um de nós
é diferente e tem a suas crenças. O que serve para mim pode não servir a
mais ninguém. Respeito isso. Não sou dona da verdade. Mas sou dona da
minha vida."

(Foto: Cristiano Borges/ÉPOCA)
"Até agora não tive nenhuma doença grave. Cadastrei-me no serviço
da Dignitas para apoiar a causa. Não tenho medo de comentar abertamente
minha visão sobre suicídio assistido. Cada um tem direito de decidir a
respeito da própria vida. Meus irmãos me entendem e apoiam. Já meus pais
nem gostam de ouvir. Posso entendê-los. Não é natural perder o próprio
filho. Só não quero que me vejam como louco. Se eu tivesse uma doença
crônica ou problema físico incurável, certamente usaria o serviço. A
clínica faz algo nobre ao oferecer essa oportunidade para quem está
sofrendo. Mas eu espero, de verdade, não precisar usar o serviço."

(Foto: Mirian Fichtner/ÉPOCA)
"Na escola, eu lutava judô e era a atleta da sala. Depois, me
formei em Educação Física e pratiquei todo tipo de esporte. Malhava e
corria diariamente, pegava onda quase todo fim de semana e participei de
maratona. Tudo acabou há três anos. Dei um mergulho no mar, de um lugar
alto, não vi que a água estava rasa e caí de cabeça num banco de areia.
Quebrei uma vértebra na coluna cervical e fiquei tetraplégica. Desde
então, só consigo mexer a cabeça.
A lesão não tem cura. Passei meses fazendo um tratamento
experimental, nos Estados Unidos, e não melhorei. Centenas de médicos
testam novos métodos e técnicas de cirurgias pelo mundo, cobram caro e
não oferecem resultados. Conheço muita gente que viajou, pagou e se
frustrou. Por isso, não me arriscaria a fazer uma cirurgia que pode não
dar resultado. E o risco de que eu falo não é risco de vida ou
financeiro, é o risco de me decepcionar. Fiquei muito tempo achando que
as coisas iriam melhorar e acontecer. Pesquisei muito o assunto e sei
que a perspectiva não é boa. Há muita esperança em células-tronco, mas
nada palpável até agora. Um cientista brasileiro, Miguel Nicolelis, quer
usar a robótica para fazer um tetraplégico dar o pontapé inicial na
Copa de 2014. Isso não me anima, não quero usar um exoesqueleto e sair
na rua igual ao Robocop. Quero restaurar a função ativa da minha
musculatura. Eu faço fisioterapia, a única coisa que posso fazer. De
segunda à sexta, participo de sessões para não deixar meus músculos
atrofiarem e vou ao psicólogo e psiquiatra, uma vez cada. Eu não sou uma
pessoa depressiva ou bipolar, nunca tive tendência para isso. Tento
viver minha vida, saio bastante com meus amigos e família. Estou
trabalhando numa empresa, onde uso um computador e telefone com
adaptações, mas tudo é difícil. Ainda mais quando vejo a vida das
pessoas andando e a minha, parada.
Eu não consigo nem comer e escovar os dentes por conta própria. É
muito penoso, passivo. Como posso esperar viver uma vida plena e longa
se sempre estarei dependendo de alguém? É impossível, inviável e
intolerável. Eu tinha uma vida plena até o dia do meu acidente. É fácil
me dizer que devo tocar a vida. Não. Eu posso desejar uma qualidade de
vida que eu não tenho e não sou obrigada a aceitar aquilo. É difícil
para quem está de fora entender. As pessoas são egoístas, só pensam no
quanto elas vão sofrer se você for embora. Não conseguem ter ideia do
seu sofrimento. Gostaria que a minha decisão fosse respeitada. Eu entrei
em contato com a Dignitas há um ano e meio. Fiquei aliviada em
descobrir que lá não é um açougue. Eles se importam, querem saber o que
você sente. Com a Dignitas, passei a ter uma alternativa, uma saída.
Senti uma paz impressionante ao me cadastrar lá.
Eu sei que não vou envelhecer assim. O suicídio é uma coisa que vai
acontecer na minha vida e eu espero que não demore. É algo que precisa
ser bem trabalhado em família, porque eu não quero que eles sofram com
isso. Principalmente meus pais, ainda mais minha mãe, que me carregou no
ventre. É muito complicado. Queria organizar uma reunião familiar com
um psicólogo para discutir a situação. Não quero fazer nada em
desarmonia, não é justo. Eu tive a sorte e oportunidade de ir atrás de
tudo possível para melhorar, e mesmo assim não tenho perspectiva. É por
isso que vou até a Suíça."

(Foto: Francois Wavre/Rezo/Polaris/ÉPOCA)
"O suicídio marcou minha infância. Quando eu era pequeno, um primo
mais velho tentou se matar com um tiro no peito e não conseguiu. Eu
acompanhei suas sessões diárias de fisioterapia no hospital, por meses,
sem perguntar nada. Até hoje não sei qual foi seu motivo. Eu
simplesmente ficava olhando para seu rosto, curioso para saber o motivo
daquela atitude. Eu achava o suicídio uma coisa medonha, mas tinha certo
fascínio. Minha visão a respeito do tema melhorou ao passo que
envelheci e amadureci. Comecei a entender que existem vários tipos de
suicídio e suicidas. Ano passado, vi uma reportagem na televisão e
fiquei impressionado com o depoimento de um membro da Dignitas. Ele
havia sido diagnosticado com uma doença grave que não tinha ainda
manifestado os sintomas. Mesmo assim, estava indo para a clínica morrer.
Fiquei impressionado com a convicção da pessoa e me inscrevi na clínica
na mesma hora.
O suicídio não precisa ser uma coisa trágica. Pode ser calmo, bem
pensado e com dignidade. No meu caso seria mais fácil tomar uma decisão
dessas, já que não tenho filhos nem esposa. Já fui religioso, hoje sou
ateu. Eu não tenho problema algum de saúde, nunca desejei me matar e nem
teria coragem de pular de um prédio ou dar um tiro no peito. Adoro
viver. Mas, se a vida em algum momento se tornar um fardo para mim, ela
não terá mais sentido e eu vou procurar uma forma digna e decente de
morrer. As pessoas não fazem seguro de vida? Vejo a Dignitas como um
seguro de morte."
Época via Nos-On-Liner
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