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Para Odilon, assassinato da juíza Patrícia revela descaso com segurança de magistrados que atuam no combate ao crime
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Escoltado por dez policiais federais 24 horas por dia e com um posto
policial dentro da própria casa, o juiz mais ameaçado do Brasil, Odilon
de Oliveira, disse que o assassinato da juíza Patrícia Acioli, de 47
anos, na madrugada de sexta-feira (12) em Niterói, região metropolitana
do Rio de Janeiro, expõe o descaso com a segurança dos magistrados que
atuam no combate ao crime organizado.
Patrícia era conhecida por sua atuação rigorosa e tinha um histórico de
condenações contra policiais. Apesar de seu nome constar em uma lista de
12 pessoas marcadas para morrer, ela não tinha mais escolta desde 2007.
Considerado linha dura, Oliveira perdeu a conta de quantas ameaças
sofreu em 13 anos de atuação na área criminal. Ele foi responsável pela
condenação do líder da maior facção criminosa do Rio, o traficante
Fernandinho Beira Mar.
Titular da 3ª Vara Federal Especializada em Crimes de Lavagem de
Dinheiro, em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, Oliveira coleciona
centenas de condenações de traficantes e contrabandistas. Ele também foi
responsável por confiscar 80 fazendas, 75 imóveis, aviões, centenas de
automóveis, embarcações e dinheiro do crime organizado.
Embora conte com um forte aparato de segurança, o magistrado ressalta
que muitos juízes que atuam em varas criminais estão vulneráveis a
atentados porque não dispõem de escolta e afirma que o Estado brasileiro
atua com descaso no combate ao crime organizado.
- Quando um país não tem condições de proteger suas próprias autoridades, imagine a situação da sociedade.
Juízes ridicularizados
Sem papas na língua, Oliveira denuncia que juízes que se sentem
ameaçados e pedem segurança são muitas vezes ´ridicularizados´ pelos
tribunais que, segundo ele, também reduzem o efetivo das escoltas
frequentemente ´à revelia das próprias autoridades´.
- Os próprios tribunais muitas vezes ridicularizam o juiz que se diz
ameaçado. Isso é grave e é um descaso muito grande. Eles afirmam:
´porque não acontece com fulano, fulano, fulano e só acontece com você´.
A gente encontra esse tipo de cinismo.
Oliveira cita como exemplo a morte do juiz Alexandre Martins de Castro,
que atuava no combate ao crime organizado e foi assassinado em março de
2003, quando saía de uma academia em Vitória, no Espírito Santo. Ele
lembra que, assim como aconteceu com a juíza Patrícia, a escolta do
magistrado havia sido reduzida de três policiais para apenas um. Segundo
Oliveira, se sentindo abandonado, o juíz de Vitória dispensou a
presença do agente.
São ameaças concretas. Ninguém ameça ninguém à toa ou passa trote.
Isso não existe. São pessoas alheias que ainda não tiveram compreensão
da realidade. Não conhecem nem a realidade brasileira ou se deixam levar
pelo cinismo. Isso acontece bastante.
Ele lembra que a juíza Patrícia Acioli atuava em um ambiente de extremo
risco porque ´condenava, prendia e investigava pessoas muito preparadas e
familizariadas com a criminalidade, tanto combatendo quanto navegando
com o crime. São pessoas destemidas, daí o risco maior´.
Agentes de segurança carimbando processos
Hoje, os magistrados ameaçados de morte contam com uma segurança
temporária feita pela PF (Polícia Federal). No Senado Federal, um
projeto de lei, recomendado pela Associação de Magistrados, promete
criar uma guarda especializada para garantir a proteção de juízes. Pela
proposta, cada tribunal teria segurança própria e seria responsável pelo
treinamento dos novos policiais.
Oliveira é favorável ao projeto de lei, mas lembra que os tribunais
federais já contam com 6.000 agentes concursados para cuidar da
segurança dos magistrados e dos fóruns. Entretanto, ele afirma que esse
contingente estaria atuando em funções administrativas.
- Estão todos carimbando processos. Há um desvio funcional e o Poder Judiciário é responsável por isso.
Ironicamente, ao mesmo tempo que condena criminosos a penas de prisão,
Oliveira perdeu a liberdade de ir e vir durante 13 dos seus 62 anos.
Embora se revele ´decepcionado e magoado´ com o Estado brasileiro, diz
que adora o que faz e que pretende continuar trabalhando até ´ser
expulso pela aposentadoria compulsória aos 70 anos´. Ele não sabe, no
entanto, se vai contar com o aparato de segurança quando se aposentar,
daqui a oito anos.
Fonte: R7/Blog da Força Tática